"Ao homem a liberdade impõe-se incondicionalmente no âmago de seus desejos, sendo-lhe necessária, tal qual o alimento, para lhe manter vivo, sadio e são.
Tratemo-nos a nós mesmos como seres desejantes e nada mais, pois o que somos e o que fazemos daquilo que somos senão racionalizarmos uma sequência infindável de vontades às quais nos submetemos?
Na atualidade, a existência humana confunde-se em sua própria ausência, sendo igualmente sinônimo do progresso insensato desta nova idade das trevas na qual estamos encarcerados. Somos parte de uma grande corrida para lugar nenhum, mas esgotamos todas as capacidades de nossas almas tentando alcançar este pódium abstrato.
Levantemos, pois, nossas lápides como troféu! Brindemos a morte, a carência e o desapego como prêmios por nossa própria submissão, ignorância e desunião!
Brindemos caros irmãos, o que nos resta a brindar!
Empanturremo-nos de champagne e vinho, assim como nossos carrascos o fizeram enquanto nos manipulavam de seus tronos de ouro; contemplemos neste último suspiro desesperado, ao qual vulgarmente chamamos de 'vida', a possibilidade de sonhar.
Mas, porque neste momento sublime sonhamos em ser aquilo que nos aprisionou?
Desprezo-me igualmente desprezo toda a sociedade contemporânea, por sua concepção moderna de liberdade.
Porque ser livre significa aprisionar a todos os outros?
Porque nos dias de hoje a felicidade só pode ser alcançada através do sofrimento de outrem?
Acredito que vivemos sempre o reflexo de nós mesmos. Vemos-nos, mas não somos nada além de reflexos invertidos da realidade.
Talvez o mundo todo não passe de um espelho, ou talvez o sentido da vida seja a emancipação deste grande espelho, deste mundo superficial que nos foi dado.
Concentro nestes pensamentos confusos o meu esforço por sair da imagem, por viver além deste espaço vago em que nos encontramos exatamente agora."

Belas palavras trágicas.
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