"Abro uma página em branco, como tem sido todos os dias de minha vida
Busco inspiração sentado de fronte a ela e invejo-a
Ela é página, é possibilidade, é fantasia e eu, o que posso ser?
Hipóteses venho sendo reiteradas vezes (mas de que?),
Sempre carregado da mesma esperança tosca
Já cansada de tanto esperar
Concentro-me não sei bem em que, e as palavras fluem
Constroem-se por si só, sendo eu, mais uma vez, coisa alguma
Senão um reles intermediário entre o vazio de mim
E a realidade crua dos pensamentos recém criados
Contemplo-os com satisfação saudosa e tola, agora já não me pertecem
Agora que os exorcizei de mim e os vi tomar(finalmente) uma forma
Que não esta minha
Aos poucos as frases se encaixam, traduzindo-se em verdades, sentimentos,
tolices como qualquer outra coisa que exista de fato
Eu os leio e releio e a mim são verdadeiras obras-primas,
Ainda que eu, mais do que qualquer outro, tenha plena noção de sua banalidade
(Porque tudo o que existe é banal e insensato)
Nisto consiste a minha saudade, na insensatez de todas as coisas
Nos sonhos que deixaram de ser sonho
Convertendo-se em realidade vazia, sem mistério, sem graça
Vivo dos sonhos
Do que mais poderia viver?
Se é isso tudo e nada que me resta
O grafite desliza sobre a superfície nua da folha
No compasso dos meus pensamentos
Parágrafos rápidos, lentos, confusos, delirantes!
Instantes de consciência são deixados para trás
Como prova de que um dia existi e sonhei
Assim como tantos outros
De existência parecida ou não
Quem sabe quantos homens já pensaram estas mesmas coisas
E se indagaram desta mesma questão que agora me atormenta?
Quem sabe (e de que valeria saber?)
Lá fora, o mundo
Em mim a alegre sensação de vê-lo ao entardecer
Através da janela já suja e enegrecida pelo tempo
(Não sei se beleza está na janela, no mundo
ou apenas no momento)
Antes de concluir o que sinto
Já não existe nada a sentir
Pois o mundo já não é o mesmo
E a sensação abandonou-me de vez
Emancipou-se de mim."

você me inspira!
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